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segunda-feira, 19 de março de 2012

RELIGIÃO

Paróquia de Nossa Senhora do Carmo divulga programação da Semana Santa


Terá início no domingo, dia 25/03, com Setenário das Dores de Nossa Senhora, a programação oficial da Semana Santa 2012. O setenário vai de 25 à 31/03 e durante todos este dias haverá missa às 19 horas, no Santuário do Nossa Senhora do Carmo.
No dia 1º/04, Domingo de Ramos, está previsto para acontecer às 08 horas na Igreja do Rosário, às 10 horas Comunidade dos Campos e às 17 horas e 30 minutos missa seguida Procissão de Ramos, da Igreja do Rosário para o Santuário do Carmo.
Na segunda-feira 02/04, acontece missa no santuário às 19 horas e Procissão do Senhor dos Passos para a Igreja do Rosário. O sermão será proferido por Dom Miguel Ângelo Freitas Ribeiro, Bispo Diocesano.
No dia 03/04, haverá missa às 19 horas, seguida de Procissão de Nossa Senhora das Dores para a Capela de São Vicente de Paulo, na Vila da Melhor Idade.
Na quarta-feira, 04/04, acontecerá santa missa às 19 horas na Igreja do Rosário e na Capela de São Vicente de Paulo. E a procissão com Senhor dos Passos, pelas ruas José Antônio Ferreira, Lafaiete Brandão e Avenida Dom Alexandre Amaral. E a imagem de Nossa Senhora das Dores, segue pelas Ruas José Teodoro Rodrigues e Virgílio Silveira. O encontro com as duas imagens acontece na Praça do Santuário, onde haverá o sermão do encontro.
No dia 05/04, quinta-feira santa, vai realizar-se às 08 horas e 30 minutos missa e bênção dos Santos Óleos em Oliveira. E às 19 horas e missa da Ceia do Senhor e lava pés. Após a missa, transladação do Santíssimo Sacramento para a capela, onde haverá vigília até a meia noite.
Na sexta-feira da paixão, 06/04, a programação começa às 06 horas com reinício da adoração silenciosa ao Santíssimo Sacramento até as 15 horas. Às 08 horas Via Sacra pelas ruas da cidade, coordenada pela Pastoral da Juventude. A solene ação litúrgica, celebração da Paixão do Senhor, adoração ao Cristo na Cruz e comunhão, acontece às 15 horas. E o sermão do descendimento da cruz no adro do Santuário acontece às 20 horas. E em seguida haverá a procissão luminosa do Enterro de Jesus.
No dia 07/04, sábado santo, às 15 horas acontece a celebração da penitencia para casais. E às 19 horas e 30 minutos haverá solene Vigília Pascal.
No domingo da páscoa (Ressurreição do Senhor), 08/04, às 06 horas começa a Santa Missa na Igreja do Rosário seguida da Procissão da Ressurreição para o Santuário e Benção do Santíssimo Sacramento. Já às 10 horas será realizada missa com as crianças no Santuário e às 18 horas missa no Santuário e Procissão do Triunfo de Nossa Senhora.
Na Semana das Dores haverá confissões das 10 horas e 30 minutos às 11 horas e 30 minutos e das 14 horas às 16 horas. E na Semana Santa,  segunda e quarta-feira, das 14 horas ás 16 horas.

quinta-feira, 15 de março de 2012

RELIGIÃO

Antigas Semanas Santas em Carmo da Mata

Fotos: Arquivo Tribuna


Uma das mais gratificantes recordações dos tempos idos de Carmo da Mata é a das solenidades da Semana Santa, fato que constituía verdadeira revolução na rotina diária do lugar. Ainda na Quaresma, tínhamos, às sextas-feiras, a Via Sacra. Na semana que precedia o Domingo de Ramos era realizado o Setenário de Dores, que constava de cânticos, ladainhas, leituras e orações, tudo acompanhado pela banda do Sr. Cesário. A imagem da Mater Dolorosa se destacava no altar, cada dia com uma pequena espada atravessando-lhe o coração até se completarem sete, terminando, assim, o Setenário. As outras imagens eram cobertas com um pano roxo.

No Domingo de Ramos havia a Procissão de Depósito, na qual a imagem de Cristo conduzindo a cruz era, depois de encerrada em um cubículo de pano, levada para a Igreja do Rosário, de onde sairia na quarta-feira para a Procissão do Encontro. Porém, a revolução a que me referi já tinha seus primórdios bem antes, com pessoas encomendando calçados ao Gino e ternos ao João Batista de Sales e ao Zé Alfaiate, preparando-se, assim, para a “festa”.
Na segunda-feira, os fazendeiros e sitiantes traziam seus carros de bois lotados de colchões, roupas de cama, panelas e também de biscoitos, roscas e broas. Que gente boa! Alojavam-se em casas próprias ou alugadas para aqueles dias. Volantes eram distribuídos, anunciando os filmes que seriam exibidos durante quase toda a semana, incluindo-se a infalível “Vida de Cristo”.
Encontro
Na noite da quarta-feira havia a Procissão do Encontro. A banda executava motetes e outras músicas sacras. O povo, compenetrado, acompanhava, formando alas e conduzindo velas acesas, cujas chamas contrastavam com a escuridão mal quebrada pela baixa ciclagem da Companhia Sul Mineira de Eletricidade. As velas constituíam, assim, um espetáculo à parte. O Encontro se dava defronte à Igreja. Lá estava o púlpito, cujos restos ainda podem ser vistos hoje, ao lado da igreja. O Padre Galdino pregava o sermão. Sua voz adquiria um tom dramático e patético, bem diferente do de suas costumeiras homilias dominicais. Terminava ele o sermão com o invariável brado: “Misericórdia! Misericórdia!”.
Na quinta-feira havia Procissão de Dores, na qual a imagem da Mater Dolorosa era conduzida com a mesma ordem, respeito, devoção e as demais características da véspera. Porém, o toque máximo das solenidades acontecia na Sexta-Feira da Paixão. Era um dia completamente diferente de qualquer outro em Carmo da Mata. O lugar de revestia de algo como um luto pesado. Apesar do movimento, o ambiente era tristeza e sufocação. Não se ouviam gritos ou risadas. Nem mesmo os trens apitavam. O Jerônimo conduzia para os passinhos os quadros mostrando aspectos da Paixão de Cristo. Mediam cerca de um metro quadrado e eram uma espécie de tela ou pano reforçado por saco de aniagem. Mostravam figuras grotescas, sem um mínimo de arte e bom gosto, mas que conseguiam levar a mensagem.
A propósito dos passinhos, eles eram em número de cinco, se me lembro bem. Deles resta apenas um, carinhosamente conservado pelo Lineu de Carvalho ao lado de sua residência. O Jerônimo tinha também a missão de fazer soar a matraca nas ruas centrais durante o dia, único barulho estridente que se ouvia então. À noite havia a Procissão do Enterro, com suas características bem marcantes e indeléveis na lembrança de quantos a presenciaram. Dentre as pessoas que se destacavam nessa solenidade estavam Pio, conhecido como Pio Vaca. Porém esse apelido lhe era extremamente injurioso, e quando alguém lhe endereçava tal penduricalho onomástico, o Pio, desabrido e áspero, o passava à progenitora do remetente.
Centurião
Mas o que verdadeiramente se notabilizava na Sexta-Feira da Paixão era o seu papel de centurião romano. Vestia-se com um manto preto, calçava umas perneiras surradas e, à cabeça, levava um arremedo de capacete vermelho que terminava em uma peça recurvada com um bico de arara; ao rosto aplicava uma máscara de papelão ou couro, não me lembro bem, que lhe dava um aspecto medonho, que em nada se assemelhava aos garbosos elementos da milícia romana. À mão trazia uma lança formada por uma haste de madeira cilíndrica encimada por um losango de lata pintado de vermelho, sugerindo o sangue de alguém que tenha ousado quebrar lanças com ele.
Muito compenetrado de seu papel, o bom Pio se deslocava em vai-e-vem contínuo diante do esquife do Senhor Morto, dando uma pancada seca com o pé da lança no piso a cada meia volta. Isto dentro da igreja, logo antes da procissão. Em seguida esta tinha início com toda a sua comitiva de práticas legítimas e outras supersticiosas. O sino, em dobros de finados, plangia lugubremente, girando sobre o eixo, impulsionado pelo João Cuié. E a Procissão do Enterro prosseguia. Notavam-se as virgens, meninas vestidas de branco, tendo à cabeça um grande véu de filó. Também os anjos se destacavam pela roupagem mais vistosa e um par de asas habilmente confeccionadas.
Os penitentes desfilavam formando duas alas. Eram meninos com os bustos seminus, que se fustigavam o tempo todo com um minúsculo feixe de taqueras. Digna de nota era a Maria Madalena, representada pela linda e loura Adail, hoje cunhada do Dr. Amâncio. Trajando longo vestido branco e tendo soltos os cabelos que lhe desciam até a cintura, a jovem Adail chamava a atenção pelo seu porte magnificente. O Adão era representado pelo menino José Carlos Lobato, enteado do Sr. Nephtali. A Dudu lhe preparava a túnica com folhas de café. Ignoro ter existido essa rubiácea no Paraíso Edênico, mas era assim que o Zé Lobato se trajava para o Adão da Procissão.
Via-se também o Isaac, representado por um menino que conduzia às costas um feixinho de lenha. Um galho de árvore com uma enorme serpente de pano tendo à boca uma maçã conduzida na procissão. E o cumprimento de promessas: algumas pessoas que faziam todo o percurso com os pés descalços, outras levavam à cabeça uma pedra de um quilo. Lembro-me de um preto que acompanhou a procissão tendo o corpo enrolado por uma pesada corrente de carro de boi. Isso provocou algo hilariante no passinho que ficava nas imediações da casa que hoje pertence ao João do Abílio: havia uma enorme correição de formigas lava-pés junto ao passinho. Espevitadas pelo pisotear do povo, elas atacaram de rijo, provocando tumulto e uma situação tragicômica para o homem da corrente.
Canto
Em cada passinho, a Verônica cantava o “Atendite”, exibindo o pano estampado pela Sagrada Face, tendo a lhe fazer coro a infalível matraca do Jerônimo. A Marcha Fúnebre era executada pela banda. Logo atrás do esquife ia o nosso Pio Centurião (ou Centurião Pio, como quiserem), cuja lança e capacete sobressaiam por sobre a multidão. O esquife chegava à igreja, agora superlotada. O altar-mor estava coberto por uma enorme cortina roxa por detrás da qual estavam as virgens e os anjos assentados sobre uma arquibancada previamente armada. Em um dado momento, o véu se deslizava revelando toda aquela plêiade infantil, à vista da qual todos soltavam um irreprimível “Oh” de admiração e de deslumbramento. Seguia-se o beijo à imagem e o óbolo.
No dia seguinte, Sábado de Aleluia, o ambiente era diametralmente oposto. Às nove horas da manhã, o povo se reunia na praça da Matriz, defronte ao coreto, debaixo de um eucalipto, para festejar as aleluias. A banda executava músicas festivas, acompanhada por meninos que, fazendo soar campainhas, corriam em volta. O Sr. Durval do Nascimento (pai do Caboco) já havia preparado grande quantidade de foguetes e também a tracaria, que era um pau fincado no chão e carregado de pequenas bombas que explodiam em rapidíssima sucessão até o fim, quando uma bomba mais possante estourava com enorme barulho.
Havia nesse sábado, também, “diferenças” curtidas desde muito e que se desfaziam em entreveros feitos no intuito de “tirar as aleluias” no adversário. À noite, o Sr. Durval se evidenciava novamente com a queima do “castelo”, que era um dispositivo pirotécnico soberbamente elaborado por ele e seus filhos. Em seguida vinha a Queima do Judas, boneco feito com pólvora e bombas e que, suspenso pelo pescoço a um galho de eucalipto, se consumia em chamas e estouros. Antes, porém, era lido o “testamento do Judas” para gargalhadas gerais, pois o generoso bonecão havia deixado as ceroulas para o Quinzinho Notini, as botinas para o Levy Zeringotha, o pedaço de fumo para o Toniquinho do Lafaiete, as calças furadas para Carlinhos Sartori, o pinico para Odilon Jeunon, o guarda-chuva para o Juvêncio, os bentinhos para o Pedro Florista, a dentadura para o Luiz Sartori e assim por diante. Qualquer pessoa bem situada ou bem conhecida era infalivelmente aquinhoada.
Por fim, vinha o Domingo da Páscoa. Muito antes do sol sair a Procissão do Triunfo já desfilava com o alegre repicar dos sinos, o espoucar dos foguetes e o toque festivo da banda de música. O andor portava a imagem de Maria toda de branco. Quanto ao resto do domingo, era o de um domingo comum. Estava terminada a Semana Santa.
Na segunda-feira tudo voltava ao ritmo normal, notando-se, a mais, o retorno do pessoal da Forquilha, Batatal e outras vizinhanças aos seus lares. Ficavam ainda os comentários e a saudade daqueles dias tão diferentes...

Mudanças

Devo acrescentar que depois de 1937, Padre Dionísio Chagas, como coadjutor e, posteriormente, substituto do querido, velho e cansado Padre Galdino (aquele também virtuoso sacerdote) modificou em muito as solenidades da Semana Santa. Aboliu práticas supersticiosas e ridículas, dando às cerimônias um tom de mais seriedade e efetiva participação, sem contudo quebrar as queridas tradições. Por essa época, até mesmo o centurião foi substituído pelo José Luiz D’ Assumpção, que o representou de modo bem mais convincente. O Dr. Abílio Tomazzi D.Pardo, médico que clinicava aqui na ocasião, também prestava efetiva colaboração, auxiliando de modo muito eficiente o Padre Dionísio.
Ao terminar este retrospecto, levanto as seguintes indagações: deve a Semana Santa ser celebrada como nos velhos tempos ou atender às modificações profundas impostas pela Igreja atual? Deve a Paixão de Cristo ser cultuada apenas em nosso íntimo ou também por sinais exteriores bem marcados? Realmente, isso é matéria controversa. É bem verdade que, praticamente tudo mudou na Igreja, porém há cidades notáveis aqui mesmo em nosso Estado que ainda conservam as práticas tradicionais. Isso é realmente fé ou simples efeito de atração turística? Nada entendo do assunto, mas não vejo razão teológica ou disciplinar que se oponha à tradição, principalmente quando ela está enraizada no coração do povo...
 Armando Sábato
escritor e cineastra carmense
Texto extraído da Revista
Memória Carmense, ed.7, ano 2006