A Ermida, Capela, Matriz e Santuรกrio de Nossa Senhora do Carmo
Desde que as minas de ouro comeรงaram a dar sinais de esgotamento, os portugueses que haviam se estabelecido nas regiรตes de Mariana, Ouro Preto, Sรฃo Joรฃo Del Rei, Sabarรก ou Sรฃo Josรฉ Del Rei (Tiradentes), trataram de conseguir terrenos em lugares propรญcios ร agricultura, como meio de vida para suas famรญlias. Requereram e obtiveram, entรฃo, sesmarias que, na regiรฃo de Oliveira, comeรงaram a ser concedidas pelo governo da Capitania, a partir da segunda metade do sรฉc. XVIII. As de Ignรกcio Affonso Braganรงa, Antรดnio Pinto de Souza, Andrรฉ Ribeiro da Silva e Manoel Martins Arruda foram concedidas em 1733. Porรฉm, os quilombolas, nome dado aos negros refugiados da zona de mineraรงรฃo, dominavam o oeste de Minas Gerais, nรฃo permitindo a entrada daqueles sesmeiros, o que levou o governo da Capitania a tomar enรฉrgica atitude. Em 1769 foi enviada uma expediรงรฃo comandada pelo Mestre de Campo Inรกcio Correia Pamplona, que estabeleceu uma de suas companhias em Oliveira, sob a chefia do Cap. Joรฃo Antรดnio Friaรงa, que descarregou sobre os quilombos um violento ataque, dizimando-os completamente. Puderam assim os colonizadores dar inรญcio ao desbravamento da inรณspita regiรฃo coberta de matas localizadas nas margens do rio Boa Vista e seus afluentes (Histรณria de Oliveira, de Gonzaga da Fonseca).
Com o correr do tempo, esses sesmeiros dispuseram parte de suas terras para outros imigrantes, seus compatriotas. Formado um nรบcleo de fazendas mais significativo, trataram logo de construir uma capela, para cumprimento de seus deveres religiosos, e foi aรญ que surgiu a Ermida da Senhora do Carmo, nome escolhido talvez pela razรฃo de que a Sesmaria foi demarcada a 16 de julho de 1755, dia consagrado ร Virgem do Carmo. A maioria dos imigrantes portugueses trouxe de sua pรกtria essa devoรงรฃo, e, em seus testamentos, vรกrios deles pediram para serem sepultados com o corpo envolto no hรกbito de Nossa Senhora do Carmo, como Francisco Cotta Pacheco (em 1786), Joรฃo Bernardes Pacheco (1907), Cap. Inรกcio Ribeiro da Silva (1815), Ana Francisca de Morais (1821), Padre Francisco Antรดnio de Morais (1821), Josรฉ Rodrigues dos Santos (1824), Josรฉ Ferreira de Aguiar (1824) e Antรดnio Ribeiro da Silva (1869).
Construรญda entรฃo a Ermida, bem no alto do morro que verte para o rio Boa Vista, casas dos fazendeiros foram sendo edificadas ร sua volta, e a primeira notรญcia que se tem dela estรก no livro 1-A de Casamentos da Capela de Nossa Senhora do Desterro (Marilรขndia), filial da Matriz de Sรฃo Bento do Tamanduรก, livro este em que se lรช o seguinte registro, na pรกg. 40 V: “Ermida da Mata — Aos dez dias do mรชs de novembro de mil e oitocentos anos, na Capela de Nossa Senhora do Carmo da Mata, filial da Matriz da Vila de Sรฃo Josรฉ, Comarca do Rio das Mortes, o Rvdo. Francisco de Paula Barreto com a Comissรฃo do Rvdo. Vigรกrio desta Matriz de Sรฃo Bento do Tamanduรก, Joรฃo Pimenta da Consta, e em virtude...”. Falta aรญ um pedaรงo da pรกgina, mas se entende no final dela, entende-se que o casamento foi de Josรฉ e Ana. Com o correr dos anos, a populaรงรฃo do lugar foi crescendo, e vรกrios aumentos foram realizados na primitiva construรงรฃo, inclusive uma pequena torre, situada a poucos metros, no lado esquerdo de quem a olhava de fronte, e que sustentava o sino para a convocaรงรฃo dos fiรฉis. Um pouco atrรกs ficava o cemitรฉrio, que mais tarde foi transferido para a รกrea nos fundos da Igreja do Rosรกrio, na Rua Lafaiete Brandรฃo.
O Primeiro Pรกroco
Atรฉ 1832, a Capela era assistida por pรกrocos vindos ora de Oliveira, ora de Itapecerica. A partir desta data, fazendeiros bastante prรณsperos jรก ocupavam todo o vale do cรณrrego Bom Jesus, portanto bem prรณximos do nascente arraial, especialmente os Pereira Cardoso, que tinham como sede a Fazenda da Tamanca, cujas divisas alcanรงavam as cercanias de Gonรงalves Ferreira; fazenda esta, jรก naquela รฉpoca, de propriedade de Alexandre Pereira Cardoso (por muitos anos Juiz de Paz do Distrito). Um seu cunhado foi Fortunato Josรฉ Bernardes, ascendente da famรญlia Bernardes em toda a regiรฃo de Oliveira e Carmo da Mata e, depois, de Santo Antรดnio do Monte, Lagoa da Prata, Dores do Indaiรก, Luz, Bambuรญ etc. Em 1832, no Seminรกrio de Mariana, a oito de abril, foi ordenado sacerdote o Padre Antรดnio Pereira da Paixรฃo. Naquela รฉpoca, para que pudessem exercer suas funรงรตes, era exigido aos padres que possuรญssem certo patrimรดnio. Padre Antรดnio, convidado para servir na Ermida do Carmo, adquiriu terras ร s margens do Bom Jesus, justamente as pertencentes aos Pereira Cardoso. Ali construiu a sua casa onde รฉ hoje a rua Padre Antรดnio, antiga rua Boiadeiro. Padre Antรดnio exerceu com zelo e dedicaรงรฃo o seu apostolado. Era muito humilde, modesto e bom, sendo preferido, nesta vasta regiรฃo, para celebrar as festas de Nossa Senhora do Rosรกrio, patrocinada pelos negros, viajando a cavalo, com o maior sacrifรญcio. Depois de ser padre por cerca de 50 anos em Carmo da Mata, faleceu em janeiro de 1884, sendo sepultado na antiga Capela.
Padre Galdino Ferreira Diniz, o segundo pรกroco
Com o falecimento de Padre Antรดnio, a Capela de Carmo da Mata ficou sem titular. Entretanto, recebia assistรชncia dos padres de Oliveira, Sรฃo Francisco de Paula e Itapecerica, atรฉ que se ordenasse em 20/11/1887, no Seminรกrio de Mariana, o Padre Galdino Ferreira Diniz. Logo veio assumir a Capelinha de Nossa Senhora do Carmo, dando tambรฉm sua cooperaรงรฃo ร Capela de Nossa Senhora do Desterro (Marilรขndia). Em seguida comeรงou seu trabalho para a elevaรงรฃo da Capela a Curato, o que alcanรงou em 1904. Padre Galdino muito trabalhou por Carmo da Mata, apesar de ser natural de Itapecerica, onde nasceu a 7 de maio de 1864. Em 1906, ajudado por uma plรชiade de homens notรกveis, deu inรญcio ร construรงรฃo da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo, que foi inaugurada a 19 de outubro de 1910. O Presidente da Comissรฃo Construtora foi o Cel. Olinto Ferreira Diniz, que muito trabalhou em companhia do Tesoureiro, Cap. Josรฉ Antรดnio Ferreira, do Secretรกrio Otaviano Ferreira do Amaral e dos demais membros: Virgรญlio Silveira, Josรฉ Martins Borges, Joaquim Afonso Rodrigues, Antรดnio Ribeiro de Oliveira e Silva, Cel. Manoel Jorge de Mattos, Teodรณsio Machado da Silveira, Alberto Pinto da Silva e Francisco Marques de Assis. Na primeira lista de doaรงรตes, mais de cem pessoas contribuรญram, alcanรงando a considerรกvel soma de mais de 30 contos de rรฉis. Em 30 de setembro de 1906 foi lanรงada a pedra fundamental da portentosa construรงรฃo quando foram colocados nela, jornais do paรญs e de outras naรงรตes, moedas, tudo com discursos e banda de mรบsica (Euterpe Carmelitana), jantar em casa de Antรดnio Notini, seguido de animado baile iniciado ร s oito horas da noite quando a orquestra dava sinal ร primeira quadrilha. A planta da Igreja foi feita pelo Dr. Jorge Benedito Ottoni e desenhada por Arlindo Castro. Quem executou o projeto foi o Construtor Manoel Senra Martins, trazido de Clรกudio pelos seus fiadores, Coronรฉis Domingos e Joaquim da Silva Guimarรฃes, o Quinca Barรฃo.
Padre Galdino era filho de Inรกcio Ferreira Diniz e de Beralda Rita Linhares. Dedicou toda a sua vida a Carmo da Mata. Padre virtuoso, trouxe do Colรฉgio do Caraรงa importante exemplo de vida, pois aprendeu naquela casa de ensino as virtudes pregadas por Sรฃo Vicente de Paulo. Em 1936, Carmo da Mata foi elevada a Parรณquia, tendo Padre Galdino sido o seu primeiro Vigรกrio, cargo que exerceu por apenas trรชs anos, passando os encargos ao seu coadjutor, Padre Dionรญsio Chagas, pois jรก se sentia com a saรบde bastante abalada, o que nรฃo seria de se admirar, depois de ter sido pรกroco por mais de cinqรผenta anos.
Padre Galdino, para completar seu zelo apostรณlico, ร s vรฉsperas de seu falecimento deixou a maior parte de seus bens para a construรงรฃo do belo edifรญcio da Santa Casa de Misericรณrdia, chefiada pelo seu irmรฃo, Cel. Olinto Diniz.
O Santuรกrio de Nossa Senhora do Carmo e Padre Dionรญsio Chagas
Em substituiรงรฃo a Padre Galdino, em 1ยบ de janeiro de 1939, Padre Dionรญsio Francisco das Chagas foi nomeado Vigรกrio da Parรณquia de Carmo da Mata. Deu grande incentivo ร s festa religiosas e muito trabalhou, junto de Dom Cabral, no sentido de que a Matriz fosse elevada ร dignidade de Santuรกrio. Em 16 de julho de 1940, Dom Antรดnio dos Santos Cabral, Arcebispo de Belo Horizonte, baixou um decreto elevando a Matriz de Carmo da Mata a arquiepiscopal “Santuรกrio de Nossa Senhora do Carmo, com o privilรฉgio de colocar as Armas de Sua Excelรชncia, o Senhor Arcebispo, no alto da porta principal do Santuรกrio, tanto na parte externa como interna, e que pode sempre conservar armado o docel”. A partir daรญ, as comemoraรงรตes do dia de nossa padroeira foram realizadas com renovado entusiasmo. A cada ano, Padre Dionรญsio organizava a recepรงรฃo a centenas de romeiros que visitavam o Santuรกrio. Os padres franciscanos do Convento de Divinรณpolis vinham em grande nรบmero, conduzidos por trem especial que chegava na cidade pela manhรฃ e regressava ร tarde, deixando em Carmo da Mata uma grande demonstraรงรฃo de fรฉ e de religiosidade.
Padre Dionรญsio fundou muitas irmandades, reformou o Santuรกrio e, sua grande obra, construiu a Casa Paroquial.
Lineu de Carvalho especial para Tribuna do Carmo - julho de 2008. Arquivo Revista Memรณria Carmense.